domingo, 10 de abril de 2011

No Último Suspiro da Noite.

Hoje tive a vontade de vir a ouvir no carro, anos após a sua edição, o disco dos Radiohead "OK Computer". É um disco soberbo e dei por mim o caminho todo, de janela descida a colocar cada faixa cada vez mais alto e a cantar ao mesmo tempo. Dei por mim a gozar mais a vida e a manhã que se avizinhava. Dei por mim feliz por muita coisa que se passa na minha vida, actualmente, apesar de toda a crise, a desgraça e de toda a depressão em que o país vive actualmente. Dei por mim a pensar na razão de termos chegado a este ponto na nossa vida, um ponto que se espera que seja sempre de viragem e nunca o é.

Um ponto em que a clivagem entre as classes sociais se vá desmorecendo sem recorrer a "armas artificiais" para nos equipararmos à galinha da vizinha, como recorrer constantemente ao crédito. Arranjámos forma de nos colocármos à frente uns dos outros, comprando o que não podíamos e julgando, com isso, que nos traria felicidade e que iria completar o simples facto de termos o último modelo da Bimby, o maior ecrán plano que existe na Worten, uma mala da Louis Vuitton que aquela senhora tem, ou ter um relógio de pulso mais valioso e maior que o meu chefe.

Arranjámos forma de nos iludir com as ajudas dos bancos, em créditos que à medida que o tempo passava não nos víamos livres de os pagar, meses sem fim deste calvário e nós a precisarmos do dinheiro para algo bem mais importante, como para pagar a luz ou para comprar comida. Estes efeitos sentimos agora mais que nunca. Estes efeitos iremos sentir nos próximos anos e não vamos aprender com esse erros. Porque o ser humano foi feito para errar, para cair, de vez em quando levantar-se, aprender com esses erros mas não consegue, passados tantos anos de evolução humana ainda prever esses erros e desviar-se deles quando nos aparecem no caminho.

Pressionam-nos para cometer erros todos os dias, e não é por isso que erramos todos os dias da nossa vida. Daí que a conclusão que tiro não é que o ser humano, e neste caso a sociedade e as famílias portuguesas, têm que mudar os seus habitos e as suas mentalidades que se formaram nestas últimas duas décadas de opulência. Não. O que há que alterar são as formas de criar e fomentar o negócio, em especial no sector da Banca. Antigamente entrar num Banco era entrar numa instituição centenária, repleta de pessoas com bom aspecto, dinheiro e um certo desdém por quem não o tivesse. Há que admitir que os Bancos eram sítios inóspitos para qualquer não cliente e mesmo para quem o fosse. Vestiamo-nos a rigor no dia em que lá íamos fazer um depósito e tinhamos até receio de qualquer levantamento, dadas as circunstâncias em que nos colocávamos.

Essa visão, ao longo dos anos, de austeridade, rigor e afastamento do cliente em relação aos banqueiros deixou de existir. Criou-se uma espécie de promiscuidade entre cliente e bancos. Criou-se uma proximidade que só trouxe problemas a ambos os lados. Os Bancos passaram a ter que investir tudo o que tinham em atrair os seus clientes e em fidelizá-los e investir tudo o que não tinham em atrair pessoas que não fossem seus clientes. Uma luta desenfreada por aberturas de contas, uma luta entre Bancos e com isso perdeu credibilidade, perdeu rigor e perdeu crédito junto aos seus clientes mais dignos e fiéis que deixaram de acreditar nas faculdades de pagamento de um Banco que se desviou dos seus ideias e, literalmente, se vendeu. Já para os clientes a situação não foi melhor e estamos, finalmente, agora a ter a verdadeira noção dos erros que cometemos ao escolher este ou aquele Banco para guardar ou investir os nossos mealheiros. Tornámo-nos escravos desses Bancos ao seguir à risca tudo o que nos cobravam sem questionármo-nos da sua validade. Impostos e taxas cobradas por qualquer investimento ou crédito cedido com a maior das facilidades. E hoje estamos a receber a factura desta perda de valores. Tanto nossa, enquanto sociedade civil, como das instituições pelas quais depositámos tantas esperanças em relação ao nosso futuro.

O país está em bancarota. Encontra-se numa situação em que a volta a dar, como disse antes, passa por mudanças no sector público e privado da forma de realizar negócios. Na forma de fidelizar e criar confianças que se perderam com atitudes de pessoas inconscientes e irresponsabilizadas. E é essa falta de responsabilização da nossa Sociedade que nos leva a aceitar qualquer acto ilícito como um acto de rebeldia desculpável por todos, inclusive pelos Tribunais, Advogados e Juízes deste país. Ninguém é culpado, em especial. Somos todos. É uma ideia errada. É uma ideia de desresponsabilizar o culpado.

Com isto tudo, o que mais gostaria de focar era o aspecto que o país vai entrar em campanha eleitoral e, consequentemente, em eleições. Os ataques dos partidos, dos políticos e dos cidadãos votantes já começou. E nada traz de positivo. Ataques que, numa altura crítica como esta, só ajudam a criar uma onda de crispação que não resolve problemas conjunturais da sociedade criados, em grande parte, por estes senhores e pela sua falta de rigor e a sua capacidade de nos desapontar. E por isso eu pergunto-me se uma solução viável, sem existir de facto nenhuma, não seria fazer uma campanha idealista. Uma campanha em que um partido, mas acima de tudo, um candidato tivesse a capacidade única de se abstrair e ignorar esses ataques pessoais que certamente vão existir ao longo destes dois meses e focar toda a sua energia num discurso de positividade e, daquilo que o Brasileiros chamam de "puxar para cima". Criar condições para não mentir nem vender ilusões, não criar falsos cenários futuros e dizer a verdade, puxando pela criatividade e pelo engenho de um País que está à tempo demais com a corda na garganta e com o espartilhos apertado de tal forma que, como tudo, tem que sair por algum lado e torna-se inadmissível que valores tão seguros da nossa juventude tenham que emigrar dando a outros o orgulho que aqui não lhes atribuímos.

E quando, como no meu caso, decidimos voltar, esse trabalho feito no exterior é tão ou mais importante que o rapaz da entrevista anterior ter feito uma pós-graduação em sabe-se lá o quê e na faculdade de não sei onde. Esta campanha tem que ser atacada de forma a chamar as pessoas para a rua. A acordar quem se deixou adormecer à frente da televisão e dos debates infindáveis da TVI24, da SIC Notícias ou da RTPN. Dos programas que nos formatam a pensar uma coisa quando o que queremos é outra. Dos prós e contras deste mundo que não dão soluções e só servem para, dia após dia, até às tantas da noite, estejamos sentados no sofá de casa a ver uma figuras na televisão falar da situação e não consiguamos nós decidir qual o futuro que queremos para este país.

E quando nos dão as armas para o fazer decidimos ficar em casa e não participar, para nos dias seguintes criticar quem foi eleito pelas minorias que decidiram criar do voto a sua arma. Há que chamar a atenção dos mais jovens que o país não pode crescer sem eles. Que eles têm que servir de alavanca para este país. E garantir que não os vamos deixar sair porque não lhes demos valor, mas porque eles assim o quiseram realmente. Não vale criar jovens com ilusões saídos das inúmeras faculdades do norte ao sul do país para lhes fecharmos portas no mercado de trabalho ou lhes indicarmos que a porta de saída fica do lado de lá da fronteira. A depressão da sociedade tem que ser discutida para ser remediada e evitada. E um discurso forte, repleto de formas de encarar o país como ele sempre foi e as suas capacidades de levantar-se do chão é mais que importante, é um dever de qualquer político.

O país não é feito de decisões políticas. Não pode ser. O país somos todos nós, os que trabalhamos, os que temos famílias, os que temos filhos, os que pagam os seus deveres, os seus impostos e os que recebem justamente pelo que trabalham. O país somos todos nós e somos nós que decidimos esse futuro. Há que salientar o facto das pessoas trabalharem com sonhos em mente, com objectivos a atingir. Há que referir que o sector público existe para garantir estabilidade ao país através das suas instituições, empresas e empregados e não para trazer instabilidade através dos seus ordenados injustos, dos seus trabalhadores conformados e dos seu trabalho limitado pelas despesas do Estado.

Há que lembrar as pessoas que o País tem que oferecer o melhor do Turismo através do impulso à sua gastronomia, dos seus museus, dos seus vinhos, dos seus queijos, dos seus lugares únicos e belos. Capaz de multiplicar o número de turistas que vêem ao nosso país e que se maravilham com as riquezas que temos para oferecer e que se preguntam sempre como é possível não sermos melhores, maiores e termos mais projecção. Somos sempre o tesouro mais bem escondido da Europa. Não quero ser mais escondido. Neste país fala-se pouco do empreendorismo de certos indivíduos e das suas capacidades de criar empresas sem ajudas. São essas pessoas que têm que ser mostradas à sociedade em geral, e dizer com todas as letras que em cada um de nós existe um ser com capacidade para muito mais, para produzir mais, para trabalhar mais, para oferecer a sua voluntariedade, para oferecer o seu tempo a causas maiores, para recorrer fundo a capacidades que, por vezes, nós próprios desconhecemos.

É em situações de dificuldades que o Ser Humano cresce e se revela. Têm-nos facilitado a vida desde o momento em que nascemos mas foi sozinhos que aprendemos a andar. Pode ser, no fim de contas, apenas a minha visão "romântica" do assunto, mas acredito realmente que o elogio leva-nos a ser melhores trabalhadores e melhores seres humanos. E sem querer criar paralelos nas situações, foi o que fez Barack Obama ao apelar ao sentimento e à crença num futuro melhor na sua fabulosa campanha eleitoral. No dia da sua eleição, todos os americanos estavam convictos de que podiam participar com a sua cota parte para um país mais forte e uma sociedade melhor. Seguramente, no dia seguinte foram trabalhar com uma energia única e irrepetível.

É esse tipo de alavanca que os Portugueses precisam. Mais confiança nas suas capacidades. Mais honestidade connosco próprios. Maior rigor no trabalho de cada um. Mais alegria na vida, desde o início do dia até ao último suspiro da noite.

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